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O Papel da Mulher na Sociedade
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O Papel da Mulher na Sociedade |

Os murais apresentados são o resultado da residência artística que teve lugar durante o mês de abril de 2025, em Porto de Mós. Sob o tema “O Papel da Mulher na Sociedade”, três artistas — Gilda Barros, Isa Romão e Jacqueline de Montaigne — realizaram intervenções em diferentes pontos da vila. Através das suas obras, refletiram sobre a evolução do papel da mulher na sociedade portuguesa no período pós-25 de Abril, integrando também elementos identitários locais, como os ofícios tradicionais, os costumes e os hábitos de culto, uma explicação dada pelo curador do projeto, Ricardo Barbosa Vicente.
Gildoca Barros
A intervenção proposta por Gildoca Barros desenvolve-se sob o tema O papel da mulher na sociedade, com especial enfoque no contexto africano e nas suas múltiplas expressões. A artista propõe uma narrativa visual que reflita o lugar da mulher na sociedade contemporânea, abordando as suas lutas, conquistas e formas de resistência — sobretudo através de gestos quotidianos muitas vezes esquecidos pela historiografia oficial.
Através da arte urbana como linguagem de expressão pública, o mural funcionará como plataforma visual de diálogo, dando visibilidade a temas como a igualdade de género, a representatividade e a ancestralidade feminina. Inspirada nas vivências de mulheres cabo-verdianas e portuguesas, Gildoca procura fundir referências simbólicas comuns a ambos os territórios, criando uma ponte estética e emocional entre diferentes geografias.
A residência é vista pela artista como uma oportunidade de troca cultural profunda, onde o contacto com a comunidade local e a colaboração com outras artistas servirão de terreno fértil para a partilha de saberes e para a criação coletiva. Esta experiência, simultaneamente pessoal e artística, visa contribuir para a construção de um espaço mais inclusivo e consciente, onde a arte se afirme como instrumento de escuta, empoderamento e transformação.
Isa Marita
Sob o tema O papel da mulher na sociedade, a intervenção de Isa Marita parte de uma reflexão sobre o lugar das mulheres no mundo do trabalho antes e depois do 25 de Abril, com especial foco nas que se dedicaram à cerâmica, aos têxteis e às artes. A obra inspira-se em mulheres que, antes da Revolução, apenas trabalhavam por laços familiares com os patrões, muitas vezes em tarefas invisibilizadas, mas que, com a conquista da liberdade, passaram a ocupar o espaço laboral com autonomia e dignidade.
A peça evoca a memória da Fábrica Vasicol — fundada em 1900 e gerida, desde então, por três gerações de mulheres —, celebrando o legado feminino na produção cerâmica, também presente na cultura cabo-verdiana. A imagem central da obra representa braços femininos apoiados sobre a mesa, gesto tradicionalmente conotado com masculinidade, aqui resignificado como símbolo de força, firmeza e igualdade.
Os tons laranja e azul, em sintonia com os restantes murais da residência, reforçam a expressividade da composição, enquanto elementos como a andorinha (liberdade), o lírio (resistência e delicadeza) e a manta de Mira de Aire estendida sobre a mesa ancoram a intervenção na tradição e na identidade local.
Jacqueline de Montaigne
A proposta de Jacqueline de Montaigne apresenta uma reinterpretação contemporânea de Nossa Senhora das Dores, não apenas como figura religiosa, mas como símbolo da resiliência feminina diante da dor. A obra centra-se na forma como Maria enfrentou a morte do seu filho — sem ressentimento, com uma entrega serena e desinteressada —, espelhando as muitas mulheres que, nas suas comunidades, canalizam a fé como forma de resistência e união.
Nossa Senhora das Dores é também a figura central de uma das mais importantes procissões de Porto de Mós, que marca o início da Semana Santa. A artista inspirou-se em Dona Conceição Fernandes, mulher da comunidade local que, há mais de 58 anos, integra o grupo de zeladoras das procissões. Esta figura evocou-lhe memórias da sua avó, igualmente dedicada à vida religiosa, particularmente aos arranjos florais da igreja.
O mural homenageia essas mulheres invisíveis mas fundamentais, que preservam a espiritualidade, os rituais e o sentido de comunidade. Guardiãs da fé, do cuidado e da tradição, são elas quem mantêm viva a chama da identidade colectiva nas pequenas aldeias com devoção, convívio e propósito.
Coordenadas geográficas
Intervenção de Gildoca Barros: 39.60050537814227, -8.816213252344475
Intervenção de Isa Marita: 39.60083122407968, -8.817869887671547
Intervenção de Jacqueline de Montaigne: 39.59961750859628, -8.815609951817807
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